Este trabalho de arte propõe uma imersão nas ecologias ruderais (que crescem espontaneamente em escombros, rudus) de territórios abandonados por populações humanas. 
O projeto colabora com organismos como bactérias, fungos e líquens. Ao deixar que esses seres cresçam sobre papéis e placas de ágar, são criadas pequenas obras vivas onde a agência humana se mistura à ação da natureza. Esses seres revelam temporalidades diferentes das nossas. Seu potencial de longevidade reside na capacidade de permanecerem dormentes por longos períodos; paisagens humanas são efêmeras em comparação com a resiliência reprodutiva de diversas espécies que se mantém vivas em territórios extremamente perturbados pela ação humana.
Nas restrições de uma placa de ágar ou em papel, no entanto, cada colônia completa um novo ciclo de vida, até que entre novamente em dormência. Nesse processo, os seres tornam-se testemunhas ativas de um mundo onde humanos e natureza estão conectados: traz-se para o visível os vestígios de uma vida que persiste nesses locais, evocando rastros de múltiplos passados e deslocamentos populacionais.
Essa obra é, portanto, uma cartografia dos intervalos e margens do tempo, onde o presente é apenas uma camada em meio a tantas outras que habitaram e persistem no que chamamos de ruínas.
This artwork proposes an immersion into ruderal ecologies (spontaneously growing life in rubble, from the Latin rudus) of territories abandoned by human populations.
The project collaborates with organisms such as bacteria, fungi, and lichens. By allowing these beings to grow on paper and agar plates, small living artworks emerge — spaces where human agency intertwines with the action of nature. These organisms reveal temporalities distinct from our own. Their longevity lies in their ability to remain dormant for extended periods; human landscapes are fleeting compared to the reproductive resilience
of species that persist in territories severely disrupted
by human activity.
Within the confines of an agar plate or a sheet of paper, each colony completes a new life cycle before returning to dormancy. In this process, these beings become active witnesses to a world where humans and nature are interconnected: they bring to visibility traces of life that endure in these places, evoking echoes of multiple pasts and population displacements.
Thus, this work acts as a cartography of time’s intervals and margins, where the present is merely one layer among many others that have inhabited—and continue to inhabit—what we call ruins.
Estudos sobre desenvolvimento de micélios e biomateriais, com Adriana Fukunari, 2024.
Serra da Capivara, Piauí, Brasil, 2024.
A partir de uma folha colhida na Serra da Capivara,
 coletei um fungo presente na folha
 e o deixei crescer sob um pequeno desenho.
From a leaf collected in Serra da Capivara, I collected a fungus present on the leaf and let it grow under a small drawing.
Fungos e microorganismos sobre aquarela em meio de cultura, depois de 1 ano e meio da coleta e contaminação da placa.
Residência Epecuén
Em novembro de 2024, participei da Residência Epecuén, entre Carhué e a vila de Epecuén, nas Pampas argentinas. A vila, outrora um balneário turístico, sofreu uma inundação massiva em 1985, causada por agência humana, que causou a destruição completa do local e a deixou submersa nas águas do lago Epecuén por 20 anos. Epecuén emergiu como uma ecologia de destroços, onde microrganismos, líquens e fungos atuam como testemunhas materiais de uma história de perturbação e deslocamento; esses seres são sensores biológicos e colonizadores oportunos de substratos extremos após o recuo das águas, capazes de registrar quimicamente o trauma ambiental e o tempo geológico.

O processo artístico consistiu em deixar tais organismos crescer em meios de cultura sob pequeninas aquarelas de edifícios emblemáticos de Carhué, cidade que acolheu os deslocados de Epecuén. Assim como para esses seres, a relação entre os territórios é feita de interdependência: Carhué carrega nas ruínas de sua arquitetura as memórias de uma tragédia que redefiniu sua identidade. Os vestígios desses seres nas aquarelas e placas de ágar são registros colaborativos, co-signatários de uma cartografia da resiliência.

Epecuén Residency
In November 2024, I participated in the Epecuén Residency, held between Carhué and the village of Epecuén in the Argentine Pampas. The village, once a thriving tourist resort, suffered a catastrophic human-caused flood in 1985 that completely destroyed the area, submerging it under the waters of Lake Epecuén for two decades. After the waters receded, Epecuén emerged as a wreck ecology, where microorganisms, lichens, and fungi act as material witnesses to a history of disruption and displacement. These organisms function as biological sensors and opportunistic colonizers of extreme substrates, chemically encoding environmental trauma and geological time.

The artistic process involved allowing these organisms to grow on culture media beneath small watercolor paintings of emblematic buildings from Carhué—a town that sheltered Epecuén’s displaced residents. Much like these organisms, the relationship between these territories is defined by interdependence: the ruins of Carhué’s architecture carry the memory of a tragedy that reshaped its identity. The traces left by these beings on the watercolors and agar plates become collaborative records, co-signatories of a cartography of resilience forged by diverse lifeforms in the aftermath of capitalism-driven tragedies.

Esboço do mapa do lago Epecuén, onde foram colhidos os líquens e microorganismos. / Sketch of the map of Lake Epecuén, where lichens and microorganisms were collected.

O que é e como se forma um líquen? / What is a lichen and how is it formed?

O mapa e pedaços de objetos de onde foram coletados os líquens e microorganismos. 
Trabalho exposto na Casa de Cultura de Carhué, Argentina. /
The map and pieces of objects from where the lichens and microorganisms were collected.
Work exhibited at the Casa de Cultura in Carhué, Argentina.

5 meses após contaminação.

12 meses após contaminação.


O trabalho final é um arquivo de 5 placas de ágar sob aquarelas, que foram expostas na mostra “Dormir mientas nuestras camas arden”, no CCEBA (Centro Cultural de España en Buenos Aires) entre outubro e dezembro de 2025. / The final work is an archive comprising five agar plates under watercolor paintings, exhibited in the show "Dormir mientras nuestras camas arden" (Sleeping While Our Beds Burn) at the CCEBA (Centro Cultural de España en Buenos Aires) from October to December 2025.

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